Segunda-feira, Dezembro 4


Por escudo, uma poesia
Que não merece ser ouvida.
Por espada, uma flor morta
Com suas poucas pétalas.

O vento sopra gelado.
E assim vou eu, desarmado,
Desamado,
Desalmado,

Descontente pelo crepúsculo
Que há em mim.
Nem dia e nem noite,
Nem luz, nem trevas.

As horas desconvalecem,
E o tempo não se faz,
Pois é tarde demais para ser hoje
E cedo o bastante para ser amanhã.

Só resta esperar
O que não virá.
A última pétala se foi,
O crepúsculo sou eu.

Segunda-feira, Novembro 27


Não há cata-ventos,
Nem vaga-lumes,
E as noites são mais escuras.
Vivemos a recessão dos corações,
Com suas placas imensas dizendo:
Não há vaga para poesia.

Sexta-feira, Outubro 27




Aos que não sabem
Qual andar se dirigir,
Favor usar a escada.
Saudade
Do que ainda não veio,
Do que ainda não fui,
Do que ainda não tive.

Saudade do verbo Ser
Na primeira pessoa
Do futuro do indicativo.
...
Se saudade fosse verbo,
O que seria de nós?

Segunda-feira, Outubro 2


Morro cada vez mais devagar.
Não tenho hoje tanta pressa.
Foi-se o tempo em que o mau destino
Fez de mim o que bem quis.

Não há mais por que ter pressa.
As caronas já se foram,
Os ônibus já cessaram
E os taxis não me levam.

O dia que se foi,
Deixou marcas profundas.
Mas lúcido contento-me
Com o que resta.

Não há por que ter pressa,
Pois sei que por justiça,
Educação ou cortesia
A morte, até onde pode, aguarda.

Mas a vida, essa dama inglória
Que por prazer cobra seu preço,
Diz em sussurro aos ouvidos
Que de forma alguma espera.

Hoje,
Tenho pressa em viver,
Mas estou tão atrasado...
Passei tempo demais morrendo.

Segunda-feira, Setembro 25


Não sigo mais estrelas cadentes.
A cadência do meu desejo
E o dissabor das minhas andanças,
Ensinaram-me prudência ao navegar.
Carrego em mim, a minha própria lei:
Nunca mais voltar a amar!

(2006)

Quinta-feira, Setembro 21


Se quiseres me salvar amor,
Salva-me agora.
Salva-me por que
Não posso por mim,
E por ti também não posso.

Se quiseres realmente,
Salva-me hoje.
Ou na pior das hipóteses, amanhã.
Pois bem sei que a seu tempo, o amanhã será hoje.

Do mesmo modo que existência será lembrança,
Lembrança, esquecimento,
E amor...

O amor,
Sinceramente...não sei.
E o não saber é o que me ensina,
Que eterno vivo no oceano da meia existência,

Lá ondes onde os corações valorosos,
vivem uma vida cheia de metades,
Sonhando metade das coisas,
não sendo jamais inteiro.

Ah, amor!
Já estou tão impregnado de inexistência,
que não me recordo
de ter sido algum dia pleno.

Nem contigo fui completo,
Pois minha lembrança de você
tornou-se esquecimento.

E agora pouca coisa me importa,
Pois sei que não me salvarás...

Não se salva o que não existe.

Quarta-feira, Julho 5


Ser um pouco Eu,
É ser assim,
Triste para sempre.

Triste como os corações,
Que optaram por amar,
E não foram amados.
Triste como o filho
Que rejeitado pelo pai,
Rejeitou-se.
Triste como aquele
Que retornando para casa,
Não encontrou alguém que o esperasse.

Ser um pouco Eu,
É ser chuva e contratempo,
É ser nuvem em dia de sol,
É ser unha encravada,
É ser sorriso amarelo,
É não saber a data do último dia feliz,
E não entender por que algumas vezes se é tão melancólico.

Ser um pouco Eu...
É ser assim...só,
um só,
Sozinho...
Único,
Solitário,
Solidão.